Por que políticos brasileiros defendem tanto Israel, mesmo não sendo um país cristão?
Nas últimas décadas, vimos crescer no Brasil um fenômeno curioso: políticos brasileiros — especialmente os que se apresentam como “cristãos” — passaram a defender publicamente o Estado de Israel, usando inclusive sua bandeira como símbolo de campanha ou fé.
A cena é comum: visitas a Jerusalém, fotos em locais que são simbolos para fé cristã, discursos inflamados com referências a “Israel, o povo escolhido”. Mas o que, de fato, está por trás dessa narrativa? Por que um país do Oriente Médio, majoritariamente judeu e com uma cultura tão distante da brasileira, se tornou símbolo político e religioso para parlamentares e pastores no Brasil?
A resposta passa pela Bíblia, geopolítica, estratégia eleitoral… e, claro, muito marketing político.
Israel como símbolo de promessa
No mundo cristão — especialmente no meio evangélico — Israel não é apenas um país. É o palco das histórias bíblicas, a terra dos profetas, a nação de Jesus. É também, segundo algumas interpretações teológicas populares, o lugar onde as profecias do fim dos tempos serão cumpridas. Muitos acreditam que a restauração do Estado de Israel, em 1948, foi um sinal profético.
Esse simbolismo faz com que a defesa de Israel funcione como um sinal de aliança espiritual. Para o eleitorado evangélico, o político que apoia Israel está do “lado de Deus”. E isso, para milhões de brasileiros que veem a política como extensão da fé, pesa mais que qualquer proposta econômica ou projeto social.
Importação de um modelo americano
Esse fenômeno não nasceu aqui. Ele foi importado dos Estados Unidos, onde a direita cristã — especialmente desde a era Ronald Reagan — transformou o apoio incondicional a Israel em pauta identitária. Nos últimos anos, com figuras como Donald Trump, isso foi intensificado: mudar a embaixada para Jerusalém se tornou gesto de fidelidade religiosa e política.
No Brasil, essa linha foi seguida por Jair Bolsonaro e seu entorno, que trouxeram para o centro da política nacional uma retórica pró-Israel. Com apoio de líderes evangélicos influentes, a pauta ganhou força e se espalhou entre candidatos, deputados e até vereadores — muitos dos quais passaram a estampar a bandeira israelense ao lado da brasileira em outdoors, santinhos e redes sociais.
A contradição ignorada
Mas há uma contradição gritante nesse apoio. Israel não é um país cristão. Pelo contrário: o cristianismo é minoria, e não é incomum que missionários cristãos sejam hostilizados em certas regiões.
Além disso, Israel é um Estado moderno, laico, com leis progressistas que jamais seriam aprovadas no Congresso brasileiro por aqueles que hoje o defendem com tanta paixão. Um exemplo claro é o aborto, pois em Israel, ele é permitido em diversos casos, com autorização legal e amparo do Estado. No Brasil, qualquer tentativa de flexibilização da lei é combatida ferozmente pelos mesmos políticos que levantam a bandeira israelense.
Ou seja: muitos não estão defendendo Israel por afinidade ideológica, mas por conveniência simbólica. Porque para um público que vê o mundo como uma batalha entre o bem e o mal, entre o espiritual e o terreno, Israel virou o lado da luz — mesmo que, na prática, siga um caminho completamente diferente.
A lógica do marketing político
No fim das contas, tudo isso revela algo maior: o uso estratégico da fé na política. Defender Israel não é sobre geopolítica, nem sobre diplomacia. É sobre posicionamento. É sobre criar identificação emocional com um público religioso, ativando símbolos, metáforas e crenças profundas que geram engajamento, fidelidade e votos.
É marketing. E dos mais bem-feitos.
Mas, como todo marketing, também exige questionamento. Porque quando a política se rende totalmente à simbologia, corre o risco de abandonar a coerência, a realidade e a responsabilidade.
Afinal, defender uma nação com leis que você nunca aprovaria no seu próprio país… talvez não seja fé. Talvez seja só campanha.
Por Ivan Lara – estrategista, consultor de marketing político e especialista em comunicação governamental