Vice antes da convenção. Estratégia, sinalização ou blefe?

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Vice antes da convenção. Estratégia, sinalização ou blefe? Vice antes da convenção. Estratégia, sinalização ou blefe? Vice antes da convenção. Estratégia, sinalização ou blefe?

Vice antes da convenção. Estratégia, sinalização ou blefe?

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Por Ivan Lara | Consultor de Marketing Político

Rondônia está vivendo um fenômeno que merece análise fria. Quatro dos principais pré-candidatos ao governo já anunciaram ou estão em processo avançado de composição de chapa antes mesmo de qualquer convenção partidária. Hildon Chaves com Cirone Deiró, Adailton Fúria com Everton Leoni, Samuel Costa com o Sargento Machado, e Marcos Rogério articulando Rodrigo Camargo como vice.

Nenhum deles precisa fazer isso agora. As convenções só acontecem entre julho e agosto. Então por que anunciar vice com tanta antecedência?

A resposta está no que todos viram acontecer dentro do próprio estado. O rompimento entre o governador Marcos Rocha e o vice Sérgio Gonçalves foi tão profundo que Marcos Rocha optou por não sair candidato ao Senado única e exclusivamente para não deixar o governo nas mãos do vice. Abriu mão de uma candidatura para não transferir o cargo. Isso ficou gravado na memória de todos que trabalham com política em Rondônia.

O caso não é isolado. Em Tocantins o conflito entre governador e vice chegou a mudanças administrativas incomuns para impedir que o vice assumisse o cargo em ausências do governador. No Maranhão o vice virou opositor declarado do próprio governador. O padrão nacional de 2026 é esse. Vice mal escolhido custa caro. E os pré-candidatos rondonienses viram isso de perto.

O anúncio antecipado de vice pode ser uma resposta a esse histórico. É uma tentativa de sinalizar ao mercado político, aos eleitores e aos próprios partidos que a chapa está solidificada antes do tempo exigido. O Pai do Marketing Moderno, Philip Kotler, ao adaptar os princípios do marketing para a política, chama isso de posicionamento de coalizão. Em sistemas eleitorais como o brasileiro, demonstrar capacidade de articulação antes do voto é parte da estratégia de viabilidade.

Mas aqui está o ponto que ninguém está dizendo com clareza.

A verdade só vai aparecer até as convenções. E às vezes depois delas.

Já vi vice anunciado com festa ser trocado antes da convenção. Já vi vice confirmado na convenção ser trocado depois. Em Ariquemes, Tiziu Jidalias colocou Carla Redano como vice na convenção e a trocou logo após. Carla saiu candidata por conta própria, ganhou as eleições e está hoje no segundo mandato. O que era para ser uma troca estratégica virou uma derrota que eu previ. Pedi demissão da campanha de Tiziu porque entendi que tomar uma decisão desse tamanho sem considerar todas as possibilidades não é só um erro estratégico. É uma falta de respeito com quem está ao seu lado trabalhando pela campanha.

Cada troca tem um custo. Quanto mais público foi o anúncio, maior o preço político da mudança. O adversário não precisa fazer nada. Só precisa apontar.

Quem cumpre o que anunciou sinaliza solidez de articulação. Quem troca entrega ao adversário a narrativa de fragilidade política. Anunciar vice antes da convenção é uma aposta pública. E apostas públicas têm consequências públicas.

Com esse contexto estabelecido, vamos analisar cada chapa.


Hildon Chaves e Cirone Deiró

A composição mais consistente do ponto de vista territorial. Hildon é a força da capital. Cirone Deiró é dois mandatos na Assembleia, ex-vice-prefeito de Cacoal, com atuação reconhecida no interior do estado. Porto Velho mais interior. A lógica faz sentido.

O problema está na sequência dos fatos. Hildon chegou na pré-candidatura ao governo depois de muito ensaio, com a candidatura ainda sem convicção clara transmitida ao eleitor. Vice definido antes de a candidatura estar consolidada transmite uma mensagem que precisa ser gerenciada. Parece que o candidato precisou de um sócio para ter coragem de correr. Se a chapa se mantiver até agosto e além, o anúncio antecipado terá sido bem calculado. Se houver qualquer movimento de troca, o custo será proporcional ao quanto Cirone já foi apresentado publicamente.


Adailton Fúria e Everton Leoni

A lógica estratégica é clara. Fúria tem força no interior. Everton Leoni, apesar de quase duas décadas afastado das disputas eleitorais, é um dos nomes mais conhecidos de Porto Velho, com trajetória na televisão e no rádio que atravessa gerações. A composição busca o que Fúria mais precisa. Presença e reconhecimento na capital.

Everton Leoni carrega ainda um ativo de imagem que pouco se discute. Foi absolvido por unanimidade em um processo que durou 14 anos. Quem resiste esse tempo e sai com unanimidade tem uma credibilidade construída na adversidade que nenhum marqueteiro cria do zero.

Fúria deu sinais de que está ampliando o foco para o estado. É um ajuste necessário. Mas ainda precisa de alinhamento estratégico mais preciso para que essa mudança de postura se traduza em narrativa consistente junto ao eleitor.


Samuel Costa e Sargento Machado

A composição mais ousada das quatro. Samuel é o principal nome da esquerda em Rondônia, com presença real nas redes sociais e capacidade de debate que poucos candidatos têm. É mais representativo do campo progressista do que o próprio candidato do PT, que se filiou ao partido praticamente com objetivo eleitoral único e vem para somar à nominata.

As pesquisas mostram números baixos para Samuel. Mas Sargento Machado traz um eleitorado diferente. Segurança pública, militares da reserva, conservadores moderados que não se identificam com o bolsonarismo mas também não são de esquerda. É uma tentativa deliberada de furar a bolha ideológica do candidato principal. 

A convenção vai dizer se essa composição foi construída com solidez ou se foi um anúncio de viabilidade sem sustentação real.

Marcos Rogério e Rodrigo Camargo

Essa é a composição mais indefinida e, paradoxalmente, a que mais revela sobre o cenário atual.

Marcos Rogério lidera as pesquisas com folga no interior mas tem um problema histórico em Porto Velho, onde Hildon domina. A lógica de qualquer vice deveria ser alguém da capital, com densidade eleitoral em Porto Velho, para resolver o único flanco vulnerável da campanha.

Rodrigo Camargo é de Ariquemes. Construiu seu mandato num discurso moralista e de extrema direita, com posições alinhadas ao bolsonarismo mais radical. Esse perfil pode ter angariado simpatizantes na capital. Do ponto de vista territorial, continua sendo uma chapa interiorana. E Marcos Rogério vai precisar resolver Porto Velho.

A indefinição sobre o vice é um dado estratégico por si só. Candidato que lidera as pesquisas e ainda não fechou a chapa transmite ao mercado político que as negociações estão mais complexas do que parecem. Resta saber se essa indefinição é estratégia calculada ou articulação ainda incompleta.


O que vai revelar a convenção

Anunciar vice antes da convenção é uma estratégia de sinalização de viabilidade. O candidato diz ao mercado político que tem articulação, território expandido e está adiantado em relação aos adversários.

O risco é proporcional ao benefício. Se o vice anunciado cair antes da convenção, o candidato paga um preço de fragilidade articulatória. Se cair depois, o preço é ainda maior.

Tudo que foi anunciado até aqui ainda pode mudar. Estamos em junho. As convenções são entre julho e agosto. Entre agora e lá há negociações, pressões partidárias, pesquisas e a permanente tentação de trocar uma peça que parecia certa.

Quem tiver as melhores pesquisas, as melhores análises de dados e a disciplina de fazer os ajustes necessários vai chegar à convenção com chapa sólida e narrativa construída.

A convenção não vai revelar apenas quem será o vice de cada candidato. Vai revelar se o que foi anunciado era estratégia real ou sinalização de viabilidade sem sustentação.

Em marketing político, a diferença entre os dois só aparece quando o blefe é exposto.

Ivan Lara é jornalista, consultor de marketing político e autor do livro Marketing Político Sem Achismo. Atua em campanhas municipais e estaduais em Rondônia. As análises desta série são independentes e não representam apoio ou oposição a qualquer candidatura.