Por que quase todo mundo errou a previsão do 2º turno de 2026

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Por que quase todo mundo errou a previsão do 2º turno de 2026

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A maioria errou. Das quinze pesquisas finais, dos modelos de mercado e da projeção publicada aqui na véspera, quase todas as estatísticas e análises disponíveis antes da votação apontavam na mesma direção, e essa direção estava errada. Com 100% das seções apuradas, o resultado oficial foi 64.256.232 votos (51,79%) para Lula contra 59.826.041 votos (48,21%) para Flávio Bolsonaro, uma diferença de 4.430.191 votos e 3,58 pontos percentuais. O TSE declarou o resultado às 23h26 do domingo, 25 de outubro. É a primeira vez na história que o candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar vence o segundo turno presidencial: no dia 4 de outubro, com 100% das seções, Flávio tinha saído na frente com 56.104.503 votos (47,03%) contra 53.879.538 de Lula (45,16%), uma vantagem de 2.224.965 votos que a votação de ontem não só anulou como inverteu, a favor de Lula.

A projeção publicada aqui ontem de manhã dava a Flávio entre 75% e 85% de chance de vitória e um resultado central de 51% a 52% dos votos válidos. Errou o vencedor. E errou o lado do erro: a correção que o modelo aplicou, baseada no histórico de 2018 e 2022, supunha que a direita sairia das urnas acima das pesquisas, como aconteceu nos dois ciclos anteriores e no primeiro turno deste ano. Desta vez aconteceu o oposto. Este texto audita essa projeção com o mesmo método que ela usou: números, fontes nomeadas, e a pergunta de sempre, por quê.

O tamanho do erro

Das quinze pesquisas finais usadas no modelo, catorze apontaram Flávio na frente. Só a Vox Brasil, com Lula em 50,6% e Flávio em 49,4%, acertou o vencedor; ainda assim errou a margem por 2,38 pontos. As outras catorze superestimaram Flávio, de 1,89 ponto na mais próxima (Futura, 50,1% a 49,9%) a 3,79 pontos nas mais distantes (Gerp, Real Time Big Data e Alfa Inteligência, todas em 52% a 48%). A média simples das quinze, que dava 50,95% a 49,05% para Flávio, errou a margem por 5,48 pontos. A versão do modelo com a correção de viés histórico, que subia a estimativa para 51,7% a 48,3%, errou por 6,98 pontos, pior do que a média crua das pesquisas, porque a correção empurrou a estimativa na direção errada.

Para comparar: em 2022, o Datafolha deu Lula 52% contra 48% de Jair Bolsonaro, e o resultado foi 50,90% a 49,10%, um erro de 2,2 pontos na margem. O erro médio das pesquisas de 2026 foi mais que o dobro. E o sinal do erro foi uniforme nas quinze pesquisas, todas na mesma direção, o que aponta para um viés sistemático de método ou de cobertura, não para ruído amostral, que produziria erros em sentidos opostos.

Houve também uma inversão na hierarquia dos institutos. Gerp, Real Time Big Data e Veritá, tratados depois do primeiro turno como os que mais haviam acertado a vantagem de Flávio, foram no segundo turno os que mais erraram. As pesquisas com campo mais recente, fechado a até 48 horas da votação, erraram menos: a Futura, coletada em 23 e 24 de outubro, foi a segunda mais próxima do resultado.

Gráfico: catorze das quinze pesquisas finais superestimaram Flávio Bolsonaro frente ao resultado final de 48,21%
Gráfico: 2026 tem o maior erro médio de pesquisas de 2º turno desde 2006

Onde o modelo acertou

Nem tudo errou. A faixa de incerteza de 95% do Scoras, publicada na manhã de ontem, projetava Lula entre 43,7% e 52,8%; o resultado real, 51,79%, caiu dentro desse intervalo, ainda que o ponto central do modelo apontasse para o lado errado. O canal de virada que o artigo de ontem identificou como o mais plausível para Lula, o comparecimento, e não a transferência de voto dos eliminados, foi exatamente o que se moveu.

O único estado que virou

No primeiro turno, Flávio venceu em 14 estados: Acre, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, Roraima, Santa Catarina, São Paulo e Tocantins, além do Distrito Federal. Lula venceu em 12: Alagoas, Amapá, Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. No segundo turno, pela contagem final de 13 unidades da federação para Lula contra 14 para Flávio, Minas Gerais é a única que mudou de lado, saindo da coluna de Flávio para a de Lula. Todos os outros 26 estados e o Distrito Federal mantiveram o mesmo vencedor dos dois turnos.

Gráfico: Minas Gerais é o único estado que trocou de lado entre os turnos, placar final 13 a 14

A pergunta sobre os votos dos eliminados

O artigo de ontem projetava que o bloco dos 9.316.747 votos que foram para os candidatos eliminados no primeiro turno (Cury, Renan Santos, Caiado, Zema e os demais) penderia para Flávio, com saldo líquido estimado entre 1 milhão e 1,8 milhão de votos a favor dele, dependendo da matriz de transferência usada. Essa projeção não foi necessariamente errada na direção: não existe dado público que permita, a partir dos números agregados de hoje, separar quanto do crescimento de cada candidato veio de eleitores que haviam votado nos eliminados e quanto veio de gente que não tinha votado no primeiro turno e votou agora. É uma limitação contábil real, não uma evasiva.

O que os números agregados mostram é a escala do que de fato aconteceu entre os turnos. Lula somou 10.376.694 votos a mais, saindo de 53.879.538 para 64.256.232. Flávio somou 3.721.538, de 56.104.503 para 59.826.041. A vantagem de Lula no ganho entre turnos, 6.655.156 votos, é de três a seis vezes maior do que o teto que o próprio artigo de ontem havia projetado como saldo líquido a favor de Flávio vindo dos eliminados (de 1 a 1,8 milhão). Isso não prova que a matriz de transferência estivesse errada na direção; mostra apenas que, mesmo que ela estivesse certa, seu efeito foi pequeno diante do que realmente decidiu a eleição.

Gráfico: Lula ganhou 6,66 milhões de votos a mais que Flávio entre os turnos

O que decidiu: a abstenção caiu, e caiu do lado errado para Flávio

A abstenção foi de 21,08% no primeiro turno, com mais de 33 milhões de eleitores ausentes, e fechou em 19,22% no segundo, segundo o TSE. A queda de 1,86 ponto percentual equivale a cerca de 2,95 milhões de eleitores a mais nas urnas. Segundo levantamento do SBT News, a participação só havia subido de um turno para o outro uma única vez antes, em 2022, quando a queda foi de apenas 0,36 ponto. A de 2026 foi bem maior. Um relatório do BTG Pactual, citado pelo Poder360 antes da eleição, já dizia que a queda da abstenção ajudaria Lula, mas não bastaria para a virada, “exceto se houvesse uma queda nunca antes vista”. Foi perto disso que aconteceu.

Gráfico: a abstenção caiu 1,86 ponto entre os turnos, a maior queda da série desde 1989

O sinal estava nos dados antes do resultado. Na última pesquisa do Datafolha, entre os entrevistados de alta propensão a comparecer, Flávio tinha 52% contra 48% de Lula; entre os de baixa ou média propensão, a proporção se invertia, com Lula em 52% contra 48%. Com a abstenção caindo mais do que os modelos de eleitor provável supunham, o eleitorado que de fato votou ficou mais parecido com o segundo grupo do que com o primeiro. Felipe Nunes, da Quaest, já tinha dito publicamente no dia anterior à eleição que uma queda da abstenção em relação ao patamar estimado pela pesquisa poderia mudar o cenário, e que Lula era quem mais perdia com a ausência de eleitores; a ressalva ficou no comentário, não no número publicado.

A hipótese mais direta, levantada pelo CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, na própria noite da eleição, é que os modelos de eleitor provável da Quaest e do Datafolha funcionaram ao contrário do que deveriam: a mobilização lulista crescente no fim de campanha deveria ter elevado o peso desse grupo na ponderação, não reduzido. É uma explicação compatível com os dados disponíveis, mas Roman é concorrente direto dos dois institutos que critica, e nenhum dos dois publicou até agora uma auditoria própria do erro.

O drama da prorrogação

Às 16h32 de ontem, o ministro Cristiano Zanin, do STF, prorrogou a votação até as 19h em todo o país, atendendo a um pedido da campanha de Lula que relatava falta de ônibus em três municípios da Bahia: Salvador, Lauro de Freitas e Feira de Santana. A decisão valeu para o país inteiro, não só para a Bahia, e o TSE suspendeu a totalização enquanto a prorrogação estava em vigor. O deputado Nikolas Ferreira, do PL, disse ainda na véspera que o partido avaliava contestar o resultado por causa dela. Horas depois, já com o resultado fechado, Flávio Bolsonaro afirmou que não reconhece o resultado e que vai pedir a anulação do segundo turno, segundo o ABC+; a reportagem não detalha, até agora, os fundamentos jurídicos específicos desse pedido.

Os fatos documentados são esses, e é importante separar o que está provado do que não está. Não existe, nas fontes disponíveis até agora, dado público de comparecimento por faixa horária que permita estimar quantos votos foram computados nas duas horas de prorrogação, nem a composição partidária desses votos, em nenhum lugar do país, não só na Bahia. Atribuir a virada de 4,43 milhões de votos à prorrogação, com os dados que existem hoje, seria exatamente o tipo de afirmação que este texto e o de ontem se propõem a evitar: uma opinião vestida de número. O que se pode dizer com os dados é que a escala da margem final é grande demais para ser explicada por duas horas de votação extra em três municípios baianos; mas a prorrogação não ficou restrita a esses três municípios, valeu para o Brasil inteiro, e não há hoje como separar esse efeito do efeito da queda geral de abstenção. É um ponto em aberto, não uma resposta, e é possível que a contestação anunciada por Flávio traga, nos próximos dias, dados que hoje não estão disponíveis.

Vale registrar a reação dos mercados. No Polymarket, a chance atribuída a Lula subiu de 28,0% para 34,0% logo depois do anúncio da prorrogação, segundo o ND Mais, uma correlação temporal que por si só não prova causa. Horas depois, com a apuração já em andamento e mostrando Lula na frente, o principal ETF de ações brasileiras negociado em Tóquio caiu 11% na abertura, e o dólar futuro na CME saltou cerca de 10%, para o equivalente a R$ 5,52, segundo a Bloomberg Línea. O mercado tinha precificado a vitória de Flávio como favorita até poucas horas antes do resultado, e reagiu como quem foi pego de surpresa.

Gráfico: os mercados davam Flávio como favorito até a apuração começar a mostrar Lula na frente

O que os mercados e os outros modelos disseram, e erraram

A Polymarket deu a Flávio 89% de chance em 9 de outubro, 80,2% na manhã de ontem e ainda 67,7% à tarde, antes de virar para mais de 96% a favor de Lula às 20h41, já com a apuração em curso. A Eurasia Group, em relatório de 17 de outubro, dava 75% a Flávio e classificava a virada de Lula como improvável. O modelo Voto a Voto, da FGV EAESP, projetava Flávio com 70,5% a 81% de chance, dependendo da versão. Nenhum desses modelos, baseados em pesquisas ou em fundamentos, anteviu o resultado antes de a apuração começar a mostrá-lo.

Autoavaliação

Um evento com probabilidade entre 15% e 25% não invalida, por si só, um modelo probabilístico; eventos minoritários acontecem. O problema real foi a subestimação da incerteza: a faixa central de 51% a 52% para Flávio ficou de 2,8 a 3,8 pontos longe do resultado final, e nenhum dos cenários testados ontem previa um erro de margem de 5,5 pontos na mesma direção, nas quinze pesquisas ao mesmo tempo. A correção de viés histórico, construída sobre apenas dois pontos de dados, 2018 e 2022, foi o maior erro evitável do modelo: dois ciclos não bastam para estimar com confiança o sinal de um viés, e a correção piorou a estimativa em vez de melhorá-la. O sinal de alerta estava nos próprios números do Datafolha, na divisão por propensão de voto, e no comentário público de Felipe Nunes na véspera. Um modelo que tivesse rodado cenários explícitos de abstenção, em vez de aplicar uma correção fixa, teria dado a Lula uma probabilidade bem acima dos 15% a 25% publicados.

Nota de transparência. Este artigo foi produzido com auxílio de inteligência artificial, a partir de levantamento de fontes abertas sobre a apuração oficial do TSE, pesquisas eleitorais e declarações públicas de institutos e analistas, sob direção, revisão e responsabilidade editorial do autor.

Ivan Lara é jornalista, consultor de marketing político e autor do livro Marketing Político Sem Achismo. Atua em campanhas municipais e estaduais em Rondônia.