17.388 candidatos a vereador tiveram mais votos que o último eleito em 2024 e ficaram sem a vaga
Em 2024, 17.388 candidatos a vereador receberam mais votos do que o último eleito da própria cidade e mesmo assim não assumiram a cadeira. Ou seja, o eleitor fez a parte dele e a matemática cuidou do resto. Pelos arquivos de votação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o caso se repete em 4.672 dos 5.548 municípios com resultado no meu levantamento, ou seja, em 84% das cidades. Desses candidatos, 15.240 ficaram como suplentes e 2.148 aparecem como não eleitos.
Em Rondônia, o fenômeno aparece em 46 das 52 cidades. Em Ouro Preto do Oeste, por exemplo, o último vereador eleito teve 291 votos, e um candidato com 844 votos ficou de fora. Quase o triplo dos votos, e nem assim.
Isso acontece porque a eleição para vereador é proporcional. Os votos de cada candidato e os votos de legenda são somados pelo partido ou federação, e o número de vagas de cada um depende do quociente eleitoral, que é a divisão dos votos válidos pelo número de cadeiras da Câmara. Dentro de cada chapa, ocupam as vagas os mais votados, e a lei ainda exige uma votação individual mínima de 10% do quociente. Na prática, o voto é do candidato, mas a vaga é da chapa, o que faz da eleição proporcional um esporte coletivo, queira o candidato ou não.
A conta do tamanho do alvo também chama atenção. Dos 413.637 candidatos a vereador com votos apurados em 2024, 355.463 não se elegeram, o que dá 86%, ou 86 de cada 100, uma taxa de reprovação que faria qualquer diretor de escola convocar reunião de pais. Em 83% das cidades, o último eleito teve menos de 500 votos, e em 61% delas menos de 300. A mediana nacional foi de 243 votos. O número varia muito de lugar para lugar, e em São Paulo o último eleito teve 22.306 votos.
O piso também está subindo, e a régua, infelizmente, não manda aviso por mensagem. Em 77% das cidades, o último eleito de 2024 teve mais votos do que o de 2020, e a mediana nacional passou de 199 para 243 votos.
Esses números não explicam o motivo de cada derrota e não permitem dizer que quem ficou de fora errou na preparação. Eles mostram o tamanho do alvo, o peso da chapa e o fato de que o número a alcançar muda de uma eleição para a outra, informações que quem pensa em disputar em 2028 pode levantar antes da campanha, e não depois, quando o santinho já está impresso.
A próxima eleição municipal será em 1º de outubro de 2028, a menos de 23 meses. Para que qualquer pessoa consulte o número da própria cidade, transformei esse levantamento no Raio-X Sem Achismo, um diagnóstico gratuito de cerca de cinco minutos. A pessoa escolhe o cargo e a cidade, vê quantos votos elegeram o último eleito em 2020 e em 2024 e recebe uma nota de 0 a 30 sobre o preparo em cinco áreas, que são jurídico, meta, pauta, estrutura e financeiro.
Ivan Lara é consultor de marketing político e criador do Raio-X Sem Achismo. Os dados vêm dos arquivos de votação do TSE de 2020 e 2024, tratados no próprio Raio-X. Para fazer o diagnóstico, acesse ivanlara.com/raio-x-2028.
Foto de capa: plenário da Câmara Municipal de Goiânia, junho de 2023, por Fronteira, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).